Sobre amor e figuras de linguagem

Amor sem comparações não existe, pois se não pudermos comparar o amor de agora com o indiferente de antes, o amor não é nada, não tem graça. E Milan Kundera viaja, vai além, coloca a responsabilidade numa metáfora, como nesse trecho (quando um personagem acha que deve cuidar de sua mulher):
“Ajoelhado à sua cabeceira, ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas. Já disse que as metáfora são perigosas. O amor começa por uma metáfora. Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.”
Sem dúvida me lembro de amores que começaram com uma metáfora, mas também lembro de metonímias – no caso, efeito pela causa – quando trouxe a vida a alguém, e isso se transformou em amor. E na mesma figura de linguagem, quando o amor se foi, quando trouxe indiferença ao relacionamento. E me lembro também de metáforas sobre cegueira e lucidez, que vagam por aí, e podem acabar no esquecimento ou em qualquer outra coisa. Não sei se isso é bom ou ruim, pois como diria Kundera (novamente): nossa vida é um eterno esboço, e não dá pra voltar atrás, apagar e mudar o que já foi feito.
Profundo como um poço.
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março 9th, 2009 at 0:37
“(…) No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro” disse Kundera.
Ah, Gaba… Se é mesmo assim, eu vou além e sugiro: que tal fazer do esboço o próprio quadro? Escolha as cores mais vibrantes, pegue o melhor pincel e comece a traçar, ainda que sem técnica!
Definitivamente, eu não quero “esboços”. Quero a obra na sua totalidade, seja abstrata ou figurativa. Sim, pode ser que, depois de pronta, eu talvez a olhe e pense: “poderia ter ficado melhor” ou “poderia ter me dedicado mais”. Mas quer saber? Não faz mal… Nunca me faltarão tintas e pincéis. Nem a você.